O lado sombrio da bola: casos de abuso sexual nas categorias de base no Brasil

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Três goladas do suco de maracujá, servido por Reginaldo Pinheiro, o Doutor, 45 anos, são suficientes para Alex* sentir as pernas fraquejarem. Ele tem 15 anos, e o treinador que agora o arrasta pelo braço é o mesmo que lhe havia prometido um futuro brilhante no futebol. A vista escurece. Sob sonolência repentina, o garoto tem as partes íntimas tocadas por Doutor, que, seminu, tenta agarrá-lo de costas. “Ele relou o pênis em mim. Eu estava zonzo, sem poder de reação.” Essa é a última lembrança que Alex diz ter daquela noite de setembro do ano passado.
Ele é um dos adolescentes que caíram no golpe do Doutor, o falso olheiro que mantinha 14 garotos alojados em um pequeno apartamento no centro de Aracaju. Reginaldo foi preso no início de fevereiro. Mas sua estratégia parecia infalível. Ele convencia meninos entre 14 e 17 anos, de vários cantos do Brasil, a embarcar para a capital de Sergipe com o argumento de que lhes arrumaria um time para jogar.
Pais desembolsavam até 450 reais por mês para alimentar a esperança dos filhos, sem desconfiar das reais intenções de Reginaldo. Com ele, foram apreendidas dezenas de ampolas de injeção e sedativos, usados para dopar os meninos antes de abusar deles. “Reginaldo atuava como olheiro havia dez anos, mas, em todo esse tempo, diz ter revelado apenas um jogador, do Olímpico de Itabaianinha”, conta a delegada do caso, Mariana Diniz.
No alojamento, aponta o inquérito policial, os jovens se amontoavam em dois cômodos. No quarto de Reginaldo, alguns garotos eram obrigados a dividir com ele a cama de casal. Na parede, um quadro suntuoso reluzia a imagem de um Preto Velho e seu cachimbo. Doutor intimidava o grupo dizendo que o espírito de umbanda puxaria os pés de quem o desacatasse na madrugada. Era o “quarto do pânico”.
Toda semana, aspirantes a jogador chegavam e partiam do lugar. Cada nova vítima do olheiro se tornava motivo de chacota entre os outros, com o estigma de “menino bom” ou “flho predileto do Doutor”. Alex, que saiu da periferia de Porto Seguro, na Bahia, ficou cinco meses em Aracaju. O padrasto não se conforma. “Ainda é difícil acreditar no que aconteceu”, afrma. Não é a primeira vez que o sonho do futebol vira trauma no garimpo de novos talentos.
DE VÍTIMA AO PURGATÓRIO
Ex-jogador do Corinthians na década de 90, Fabinho Fontes foi condenado a oito anos de reclusão em 2012 por abusar de uma menina de 5 anos. Da cadeia, ele nega o crime. O advogado alega que Fabinho tinha um distúrbio mental: baixava as calças e urinava em público sob efeito do álcool. Por outro lado, um amigo do ex-meia diz que ele confessara, antes da prisão, ter sofrido abusos sexuais nos tempos de juvenil do Corinthians.

Fabinho Fontes, ex- Corinthians, condenado por ato libidinoso
Fabinho Fontes, ex- Corinthians, condenado por ato libidinoso / 
Fabinho pode ter experimentado as consequências perversas de uma suposta violência sexual na adolescência. “A maioria dos pedóflos também foi vítima de abusos quando mais jovem”, afirma o psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Prevenção e Tratamento das Ofensas Sexuais, José Raimundo Lippi.
Questionado pela PLACAR na penitenciária de Tremembé II, onde está preso há um ano, Fabinho diz que não foi molestado no Corinthians, mas teria tomado conhecimento de que profssionais do clube aliciavam atletas da base. “Eu sabia que isso existia no Corinthians”, afirma, referindo-se a abusos sexuais. “Amigos que jogavam na mesma categoria que eu sofreram na pele. Quem era assediado tinha medo de contar para a família. A coisa envolvia técnicos e diretores. Muita gente nem imagina que isso acontece no futebol.”
No fim dos anos 60, o então técnico da seleção brasileira, João Saldanha, não só imaginava. Tinha certeza. “Todo treinador de juvenis é meio homossexual”, generalizava. Historicamente, casos de assédio e violência sexual nas categorias de base são relacionados por cartolas e jogadores à homossexualidade, e não a uma prática criminosa marcada pela coação de menores por adultos.

Edson “Barrigudo” de Sousa, 54, forjava falsas credenciais de times paraguaios para cometer abusosEdson “Barrigudo” de Sousa, 54, forjava falsas credenciais de times paraguaios para cometer abusos / Crédito:
Polícia Civil do Estado de São Paulo
A visão deturpada e preconceituosa contribui para encobrir denúncias em clubes grandes. Em 2005, o goleiro Marcelo Marinho, que vivia o auge da carreira no Corinthians, rompeu a mordaça em uma entrevista coletiva. Revelou ter sido assediado pelo preparador de goleiros quando jogava no Vasco, aos 12 anos, em 1997. O desabafo lhe caiu mal. Os companheiros de time não perdoaram. “Fui zoado pra caramba. Os caras pensaram que ele [o preparador] quis me comer. Mas, na verdade, ele queria que eu o comesse”, conta.
Depois do episódio, a carreira de Marcelo entrou em declínio. Após deixar o Corinthians, ele não conseguiu se firmar em nenhuma equipe e chegou a cogitar a aposentaria em 2011. Hoje aos 29 anos, defendendo o Penapolense, o goleiro se arrepende de ter contado sobre o trauma que o acompanhou por quase uma década. “Eu era menino, morava sozinho no Rio de Janeiro, e veio esse cara oferecendo mundos e fundos para abusar de mim. Não aceitei, mas aquela recordação me consumia por dentro. Estava engasgado, eu precisava falar. Mas as pessoas levaram por outro lado.”
Na ocasião, o atleta denunciou o assédio à diretoria do Vasco, que se limitou a demitir o preparador de goleiros e não prestou queixa à polícia. Marcelo foi afastado e, semanas depois, acabou dispensado. “Cresci meio revoltado, aprontei bastante, fiz muita besteira. Foi algo que me marcou, mas duvido que outros jogadores não tenham sofrido a mesma coisa. Só que ninguém tem coragem de falar”, diz.
Para a psicóloga Sonia Román, que trabalhou por dez anos na base do Santos, até 2010, o ambiente intimista de concentrações e vestiários atrai molestadores. Seu diagnóstico no time alvinegro é alarmante. “Posso dar 100% de certeza: existia [abuso sexual] no Santos. Mas eu não consegui pegar. Há um código de honra entre jogadores e comissão técnica. Ninguém vê, ninguém fala nada.” Sonia afirma, contudo, que sua presença — ela visitava a concentração de surpresa no período noturno — teria afugentado aliciadores de menores da incubadora santista.

O jogo sujo da fébrica de ilusões
O jogo sujo da fébrica de ilusões / Crédito:
Reprodução
A MIGRAÇÃO DOS ABUSADORES
PLACAR contabilizou, em um intervalo de dois anos, pelo menos 22 casos de abusos sexuais no Brasil envolvendo o futebol e registrados na polícia (veja mapa abaixo). Mas as autoridades sugerem que esse número deva ser bem maior. “As vítimas se calam sobre os abusos. Revelar aos pais também não costuma surtir efeito, já que eles raramente têm coragem de denunciar”, diz Miguel Marques e Silva, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e ex-diretor da base corintiana.
Com a estruturação das categorias de base nos grandes clubes, que passaram a contar com professores, psicólogos e assistentes sociais, os abusadores mudaram de endereço. Enxergaram nos times amadores, clubes de pequeno porte e escolinhas o cenário perfeito para a aplicação do conto da peneira. Travestidos de falsos técnicos e olheiros, eles oferecem vagas em equipes de ponta e a fórmula do sucesso no futebol.
Os alvos geralmente são crianças e adolescentes de regiões pobres, que veem um time amador, a princípio, como miragem para um dia melhorar a condição financeira das famílias. “Às vezes, os próprios familiares fecham os olhos para os abusos, na esperança de que o filho se torne um profissional”, afirma Marlene Vaz, socióloga especialista em violência sexual infanto-juvenil.

Marcos tinha a promessa de ir para a Itália com o técnico, preso em 2011 por abuso sexual
Marcos tinha a promessa de ir para a Itália com o técnico, preso em 2011 por abuso sexual / Crédito:
Alexandre Battibugli
Em maio de 2011, Marcos, 15, treinava no campo do Recanto Verde, zona norte de São Paulo, quando viu o treinador, Ginaldo Pedro da Silva, ser algemado pela polícia por suposto abuso sexual. O garoto conta que Ginaldo costumava pagar pizzas e levar jogadores do Brasileirinho, que tinham entre 12 e 16 anos, para jogar videogame em sua casa. Para alguns deles, o técnico bancava passagens de ônibus.
Marcos se preparava para viajar para a Itália com Ginaldo, que lhe prometera oportunidade em um grande time do Brasil assim que retornassem. Hoje o meia-atacante de corpo esguio, torcedor do Flamengo, anda cabisbaixo. Ainda não encontrou outro lugar para treinar e trabalha seis dias por semana como vendedor para ajudar com as despesas de casa. “Virar jogador agora ficou difícil”, diz.
A família de Marcos, que migrou da Bahia e vive na periferia da capital paulista há cinco anos, foi pega de surpresa. “Ele ia arrumar passaporte e tudo. Quando prenderam o Ginaldo, a carreira do meu filho foi por água abaixo”, afirma a mãe, Benedita.

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