"Eu fui fiel a Patricia, ela não", veja como foi a entrevista coletiva de Luxemburgo

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Luxemburgo: ‘Foi o processo mais feio que já vivi. Fritura mesmo'

Nomesmo salão onde celebrou Estadual 2011, técnico diz que resultados sãoexcelentes: ‘Fui demitido por problemas que não pertenciam ao campo’

 

Alguns momentos importantes em video logo abaixo no fim da postagem

Vanderlei Luxemburgo escolheu um dos salões de convenção do hotelque serve de concentração para o Flamengo, na Barra da Tijuca, ZonaOeste, para falar sobre a sua demissão do clube. No local, se hospedoucom o grupo para jogos durante um ano e quatro meses, período em quecomandou o Rubro-Negro. De óculos escuros espelhados, voz rouca e carade quem dormiu poucas horas, chegou exatamente às 10h36m. Vanderleivestiu calça jeans e camisa amarela com a palavra Boss (chefe, eminglês), de uma famosa grife internacional. Às 11h16m, deu início àentrevista coletiva. Foram as palavras do ex-chefe rubro-negro. Eleresumiu o que viveu no Flamengo nos últimos meses.

- Foi o processo mais feio que já vivi. Fritura mesmo.

A coletiva aconteceu no Salão Imperial do Windsor, exatamente omesmo local onde, no ano passado, às gargalhadas, concedeu entrevistadepois da conquista do Campeonato Carioca de forma invicta. Umacuriosidade: o time B do Flamengo está concentrado no mesmo hotel parao jogo diante do Olaria. Alguns funcionários do clube repetiam como ummantra: “Nunca vi uma fase assim”. Depois de dar bom dia ao batalhão de jornalistas, a primeirapergunta direcionada a Vanderleifoi sobre uma declaração da presidentePatricia Amorim, que alegou, entre outras coisas, o ambiente conturbadopara demitir o treinador. A resposta virou um longo pronunciamento de15 minutos recheado de alfinetadas em dirigentes, Ronaldinho Gaúcho ena condução da diretoria no dia a dia do clube.

"Eu já sabia que eu ia sair do Flamengo porque a notícia saiu
há um mês. Falaram que, quando terminassem os dois jogos
(contra o Potosí), eu não
seria mais o técnico e simplesmente se confirmou"
Vanderlei Luxemburgo
Na segunda resposta, mais seis minutos. Gesticulando muito, comataques direcionados, mas sem grandes alterações de voz, Vanderleideixava transparecer sua contrariedade com o semblante tenso. Algumasbrincadeiras não serviram como alívio. Atrás da mesa, por baixo dopano, Luxa esfregava as duas mãos nas pernas repetidamente. O técnicocomentou a justificativa de Patricia Amorim para dispensá-lo.Reconheceu que houve desgaste no relacionamento com o grupo, maslamentou a postura da diretoria.

- Entendo a Patricia ter falado de desgates. Acho que faltou umpouco mais de pulso da diretoria. Senti ela sozinha e falei isso, estámuito vulnerável, sem um amparo. A minha saída do Flamengo não pode seruma coisa normal do futebol. Não é por causa disso. Futebol semdesgaste não funciona. O importante é como você trata a relação degrupo. Na minha história de futebol, tive alguns desgastes pela frente.Mas foram poucos. O desgaste existe para você se posicionar em cima dealgumas situações. Todas as vezes que eu tive um dirigente que seposionou e fez valer a hierarquia, os resultados foram muito bons.Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro. Dos meus desafetos, nenhum viroupastor de igreja. Na virada do ano, disse que seria difícil convivercom algumas coisas que ocorreram no ano passado. Falei que nãoconviveria com isso aqui. Eu mudei, comecei a colocar as coisas no seulugar. Se a diretoria não mudou, não é problema meu. Se preferem jogarpara baixo do tapete, não é problema meu. Venci dessa forma, comdesgaste de atletas de alto nível.

Em diversos momentos da coletiva, Vanderlei Luxemburgo expôs queteve de conviver com atos de indisciplina. Referia-se a Ronaldinho eaos privilégios que o astro tem com a diretoria.
- Eu não tenho que almoçar com jogador de futebol, ter relação forado futebol. E, ano passado, foram ditas algumas coisas que não sãocabíveis dentro do futebol. Não quero o Ronaldinho para casar com aminha filha, quero o Ronaldinho para jogar futebol e cumprir com seuscompromissos. A regalia que um atleta de alto nível tem que ter é osalário que ele ganha.
Ao meio-dia, um dos assessores deu como encerrada a coletiva. Masainda restava um questionamento sobre o vice-presidente de finanças,Michel Levy. Foi a senha para Vanderlei sair em defesa de Deivid, quetem R$ 6 milhões a receber do clube e revelar que no ano passado osjogadores quase fizeram uma greve por conta de direitos financeirosatrasados.
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Eram 12h06m quando foi encerrada a entrevista com duração exata de50 minutos. Vanderlei Luxemburgo bebeu uma taça de água num único gole.Na garganta seca também estava atravessada toda diretoria do Flamengo.Depois, ele cumprimentou os jornalistas que participam da cobertura doFlamengo. Luxa tentou descontrair com brincadeiras e gargalhadas.
Em seguida, desceu a escada rolante do hotel. Na camisa amarela, apalavra Boss seguia estampando a grife internacional. Mas na marcarubro-negra, Vanderlei Luxemburgo agora é apenas o ex-chefe.

Confira tópicos da entrevista:

Casos de indisciplina
- A reciclagem fez muito bem para mim. Da maneira como eu agiaanteriormente, até um pouco intempestivo, mudei, fui mais tolerante.Ano passado eu fui bem tranquilo e, às vezes, fechando os olhos paraalgum comportamento inadequado profissional, porque o Flamengo tinhaque alcançar seu objetivo, que era ir para a Libertadores. Preferimudar, aceitar e tentar me aproximar e conviver com aquilo. Em funçãodos dois jogos mais importantes para a etapa de trabalho nossa, preferipuxar o freio de mão. Mas eu falei: sou profissional de futebol, tenhoque me focar nesses dois jogos. E foi o que eu fiz. Eu tinha aobrigação de colocar o Flamengo na Libertadores. E completamos esseobjetivo agora. Eu não desviei o caminho. Faltou pulso em determinadassituações. Mas eu entendo. Na nossa conversa, ontem, senti a Patricia(Amorim) muito sozinha. Achei ela muito vulnerável, ela está muito só.A minha saída não pode ser por uma coisa normal do futebol. Desgastetem todos os dias.

Quebra de hierarquia
- Comuniquei que seria difícil eu conviver com as coisas queaconteceram no ano passado. Falei: tenho que mudar para esse ano. Eumudei, comecei a colocar as coisas em seu lugar. Se a diretoria nãomudou, não é problema meu. Se prefere jogar os problemas para debaixodo tapete, tudo bem. Eu fiz isso e venci. Eu sou pago para comandar.Mas por onde passei, conquistei títulos, mesmo tendo desgaste.

Avaliação do trabalho
- Meu resultado vem com o projeto. Para o projeto que fuicontratado, o resultado foi excelente. Eu conversei com eles que fariaa gestão do futebol e que arriscaria a minha carreira, porque oFlamengo estava na zona de rebaixamento. E o profissional do meu nível,não é legal assumir um clube faltando dez rodadas para acabar umcampeonato e o seu time podendo ir para a Segunda Divisão. Aceiteicorrer o risco. Quem acompanhou meu tempo no Flamengo viu como eu luteipara manter o time treinando no Ninho do Urubu. Disso eu me orgulho, metraz satisfação. E conseguimos levar o Flamengo para a Libertadores.Isso me deixou satisfeito. Estou triste por sair, acho que poderiaacrescentar muita coisa. Mas satisfeito de entender que o projeto parao qual fui convidado eu consegui cumprir. Completei as etapas. Saio comdever cumprido.

vanderlei luxemburgo coletiva (Foto: Janir Júnior / Globoesporte.com)Processo de fritura
- Eu já sabia que eu ia sair do Flamengo porque a notícia que saiuhá um mês. Falaram que se terminasse os dois jogos, eu não seria mais otécnico e simplesmente confirmou. O jornalista que colocou essainformação sabia disso, não colocou isso porque o cara quis colocar.Ele tinha informação de que aquilo iria existir. Só que, para completara minha etapa de trabalho, terminar com dignidade, eu tinha queterminar direito, conseguir a classificação para a Libertadores. Poucasvezes, dentro de tanto tempo de futebol, vi um desgaste tão grande euma fritura tão grande como a que fizeram comigo, vazando informaçõespara jornalistas, precisas, para que fosse se avolumando, e chegasse aodesgaste que chegou. Foi o processo mais feio que já vivi. Frituramesmo.

Crise com Ronaldinho
- Eu não tenho que almoçar com jogador de futebol, ter relação forado futebol. E, ano passado, foram ditas algumas coisas que não sãocabíveis dentro do futebol. Não quero o Ronaldinho para casar com aminha filha, quero o Ronaldinho para jogar futebol e cumprir com seuscompromissos. A regalia que um atleta de alto nível tem que ter é osalário que ele ganha. O clube é soberano. Não pode ficar refém dejogador, dirigente, técnico, da presidente, de ninguém. O clube ésempre soberano nesse processo. Tem que perguntar para Patricia (se oclube é refém de Ronaldinho).

Relação com jogadores

- Não tem desgaste com jogador. Agora, quem dirige tem que darautonomia e autoridade para o comando. Quando você tem esse direito, ascoisas caminham. E todas as vezes que tive esse direito, as coisascaminharam e muito bem. Não há desgaste, o que tem é um processonatural do futebol.
Semelhanças com 1995 e comparação com Zico e Marcos Braz


Ano passado, só confidenciando, os jogadores queriam fazer uma greve.Falei: estão loucos? Briguem, busquem o seu direito, os dirigentes defutebol têm que estar preparados para uma cobrança pública de um atleta"
Luxemburgo
- Relacionar um fato ao outro é complicado. Pessoas diferentes,momentos diferentes do clube. Eu me sinto satisfeito de ter voltado aoFlamengo e ter feito esse trabalho. Uma pena isso ter acontecido. Eununca escondi que sou flamenguista. Se eu trabalhar amanhã noFluminense, Botafogo ou Vasco, vou querer ganhar do Flamengo. Mas nãoposso negar que sou Flamengo, eu ia de bandeira para o estádio quandocriança. Mas aconteceu comigo o que aconteceu com o Zico, um dos maisilustres jogadores do futebol brasileiro. Aconteceu um desgastecaminhando. E nós somos rubro-negros, pessoas que querem o bem doFlamengo. Até com Marcos Braz, que não jogou no Flamengo, aconteceu amesma coisa. Esse processo todo. O Flamengo não poderia desgastartantos rubro-negros ilustres como está desgastando. Se tiver quevoltar, vou voltar. Talvez não como técnico. Não queria mesmo voltarcomo técnico, achava que poderia acontecer isso. Voltei pelo projetoque a Patricia apresentou, mas ela interrompeu. Voltaria, mas não comotécnico.
(Nota: em 1995, Luxa foi demitido por bater de frente com Romário)

Vitória da indisciplina?
- Não. Acho uma coisa natural no futebol. Eu saio do Flamengo com acabeça erguida e com dever cumprido. Dirigente é que tem de saber sevale a pena continuar colocando coisa debaixo do tapete. Mas meuproblema está resolvido, resolvi todos eles. O Flamengo alcançou seusobjetivos. Se o técnico vive em função de resultado, como foi falado, éexcelente. Conquistei todas as nossas metas.

Vi isso no olho no olho, conversando com ela. (Fui) totalmentedesrespeitado, sim. Faltou respeito, as coisas foram direcionadas todaspara mim."
Vanderlei Luxemburgo
Decisão só da Patricia?
- Ela com certeza deixou de ter autoridade de presidente. Vi issono olho no olho, conversando com ela. (Fui) totalmente desrespeitado,sim. Faltou respeito, as coisas foram direcionadas todas para mim.
Multa rescisória
 - Não tem multa. Eu não tenho multa. O pessoal falou disso, mas eutenho um contrato de trabalho, que a lei determina algumas regras. Eunão tenho multa, ah, tem que pagar R$ 15 milhões, R$ 20 milhões semandar embora. O Flamengo mandou embora, tinha um contrato e só. Temque pagar pelo prazo que eu tinha para cumprir (até dezembro de 2012).

Luxemburgo na coletiva de despedida
Luxemburgo na coletiva do Flamengo de despedida (Foto: Janir Junior / GLOBOESPORTE.COM)Resposta ao ‘cala boca Luxa’
- O profissional de alto nível, quando tem um problema, ele não vaificar calado. Sempre foi assim. Se a presidente do clube fala algumacoisa, ela tem que saber que está lidando com Luxemburgo, com Felipão,com Mano Menezes. Ela deveria estar preparada para saber que quando oLuxemburgo fala, tem eco, e eco volta.

Mudança de função
- Continuo como técnico, sim. Mas a reciclagem é interessante falarporque você pega o Vanderlei antes de chegar ao Flamengo e o Vanderleino Flamengo. O tratamento com a imprensa. A gente sabe que a notíciaprocede, mas às vezes você tem que ser grosso, fugir do assunto quandonão interessa. Eu queria que vocês entendessem que não é algo pessoal,e sim uma defesa profissional. Há um tempo atrás, se acontecesse 10% doque aconteceu aqui, eu tinha chutado o balde muito antes. Com certeza.E voltar ao Flamengo eu volto. Um dia, se for para ajudar ao clube e aum companheiro, volto com certeza. O Luxemburgo tá desgastado? Sequatro pessoas saem de uma comissão técnica, não é desgaste de umprofissional só.

(Nota: O gerente de futebol Isaías Tinoco, o preparador físico Antônio Mello e o auxiliar Júnior Lopes foram demitidos)

Embates com Michel Levy
Luxemburgo na coletiva do Flamengo de despedida (Foto: Janir Junior / GLOBOESPORTE.COM)Luxemburgo deu entrevista no hotel que serve de concentração para o Flamengo
- Cada pessoa escolhe os seus pares. Quem escolheu a diretoria daPatricia foi a Patricia. Ele hoje é um homem-chave na adminstração. Asdeclarações dele, até o off, trouxeram muito prejuízo para o trabalho.Foi onde começou os problemas de Londrina. A última dele foi chamar osjogadores de marqueteriros, que o Alex Silva estava bichado. Alicomeçou o desconforto muito grande. Vou falar algo que não falei naépoca, tinha acontecido no ano passado, aí vem minha reciclagem. Anopassado, só confidenciando, os jogadores queriam fazer uma greve.Falei: estão loucos? Briguem, busquem o seu direito, os dirigentes defutebol têm que estar preparados para uma cobrança pública de umatleta. Ele está com o salário atrasado? Então pode cobrar. E odirigente que não paga, que não cumpre seu compromisso, tem que estarpreparado. Esse ano, em Londrina, quando os jogadores não queriamtreinar enquanto alguém não fosse conversar (sobre atrasados), opróprio Levy. Falei: estão loucos? Temos dois jogos importantes aqui.Eu participei o tempo todo, evitando até confrontos maiores. Isso émuito pequeno. Quando firmei meu contrato em outubro de 2010, e aPatricia cumpriu parte disso, e está fazendo força, até o próprioMichel, disse que salário atrasado era uma das coisas que trazemproblema. Atleta de futebol é profissional como qualquer outro. Estásem receber, tem que jogar e não pode reivindicar?

Ação de Deivid na Justiça
- Não vaiem o Deivid, não façam isso porque ele não é mercenário.Eu peço para a torcida. Ele não está recebendo há dois anos e estájogando. Falaram para ele que não recebe porque foi contratado peloZico. O Michel Levy disse isso. Ele está se doando, correndo atrás.Esse cara é um profissional, não é um mercenário. Se fosse, não estariajogando.

Caminho do Flamengo
- Está no caminho certo. Mesmo sendo demitido do Flamengo, em umano e pouco com a Patrica, o Levy, o Veloso, com a diretoria, nósavançamos bastante. O Flamengo poderia ter aproveitado mais o grandemomento do futebol brasileiro, de investimento, Copa, Olimpíadas,dinheiro chegando. O Flamengo está no caminho certo. Conseguimos com adiretoria avançar. E acho que não tem jeito de o Flamengo voltar para aGávea para treinar. Vejo sim, uma vez por mês, voltar à Gávea para otorcedor ver seu time lá, o sócio, os conselheiros. Mas voltar comolocal de trabalho, seria um retrocesso muito grande. Todo o processoestá crescente no Flamengo hoje.
Luxemburgo na coletiva do Flamengo de despedida (Foto: Fabio Rossi / Ag. O Globo)Luxemburgo na coletiva de despedida  do Flamengo (Foto: Fabio Rossi / Ag. O Globo)

Luxemburgo admite que ficava incomodado com problemas de comportamento de jogadores

   

 








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