O lutador foi até o Alto Xingu para aprender uma luta indígena, a huka huka
Quem disse que Anderson Silva é imbatível? O campeão do UFC foi até uma aldeia indígena no Alto Xingu para aprender uma nova luta, a huka huka, e teve que rolar na terra para segurar os guerreiros camaiurá
Quem disse que Anderson Silva é imbatível? O campeão do UFC foi até uma aldeia indígena no Alto Xingu para aprender uma nova luta, a huka huka, e teve que rolar na terra para segurar os guerreiros camaiurá
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Anderson Silva olha fixamente pela janela do pequeno avião monomotor que acaba de parar na pista de terra. Está pensativo, sorri e sem desviar o olhar por nem um segundo diz: “Cara, que emocionante isso aqui”. Do lado de fora do avião ele vê dezenas de crianças indígenas se aproximarem correndo, com cabelos e corpos pintados de vermelho, aglomerando-se ao lado da aeronave a sua espera. Há dias anuncia-se que um grande guerreiro mundialmente conhecido chegaria à aldeia, onde ninguém sabe quem é Anderson Silva. Em silêncio, ele desembarca, dirige-se ao grande grupo de crianças e, rodeado, pergunta: “E aí, quem aqui é lutador?”. Várias levantam o braço. Ali, na terra dos índios camaiurá, às margens do rio Xingu, no Mato Grosso, luta é coisa séria. E é por isso que o campeão mundial de MMA trocou o octógono pelo chão de terra batida. Foi aprender uma luta local, o huka-huka, para descobrir se pode aplicar seus golpes em combates do UFC.
“É outra arte que vou conhecer, quero saber como eles conduzem a filosofia desse esporte”, disse ele, que aproveitou a experiência para gravar um vídeo comercial para a marca de açaí Amazoo. Logo que chega, além das crianças, Anderson também é recebido por Were. O rapaz jovem e bastante forte é respeitado por todos na aldeia. Carrega amarrado na cintura um cordão que tem pendurado na parte de trás a carcaça de um pássaro xexéu, preto e amarelo, com as asas abertas. É uma espécie de cinturão do huka-huka, só usam os lutadores campeões difíceis de derrubar. “Se eu perco um duelo, meu adversário pode arrancar esse cinturão de mim, jogar no chão e pisar em cima do pássaro. É como se eu não tivesse o direito de usar aquilo”, explica Were.
“Quero saber como eles conduzem a filosofia desse esporte”
Sentado em um tronco de madeira ao lado de Anderson é Were quem explica as tradições do huka-huka ao campeão do UFC. Falando sempre com um tom baixo, quase sussurrando, ele conta que por volta dos 14 anos de idade os meninos passam por um confinamento que pode durar anos. Durante a reclusão, na oca, são preparados para a vida adulta e principalmente para lutar. “Nesse tempo raspamos a pele com a ranhadeira, feita com espinhas de peixe. Passamos nas costas, nas pernas, nos braços... Depois passamos algumas raízes em cima, aí arde muito. Temos que aguentar pela nossa tradição, significa força. Também tomamos algumas raízes que fazem a gente vomitar. Eu tive que provar muitas, umas dez diferentes.” No alto dos braços e nos calcanhares são amarrados barbantes para engrossar o bíceps e a batata da perna. De casa, só saem para lutar com outros índios mais experientes no centro da aldeia. “Depois voltamos ao confinamento pra ficar pensando só sobre o huka-huka.”
E como determinar o fim da reclusão? “Nós sabemos a hora. Quando vamos lutar no centro da aldeia vemos se a pessoa ganha dos mais velhos. Aí está provado que já tem força. Se vier e perder tem que voltar pro confinamento, continuar com a ranhadeira, ficar pensando na luta, tentando conversar com os espíritos.” Were, no caso, precisou “só de um ano e meio” para ser liberado e se tornar um campeão. Agora ele terá a oportunidade de ensinar suas técnicas a outro vencedor dos ringues. E, por que não, poderá aprender algo também, para nunca perder a honraria do pássaro xexéu na cintura. Basta seguir vencendo, principalmente durante o Kuarup, festa de homenagem aos parentes mortos, na qual o huka-huka é uma das grandes atrações.
Preparado pra apanhar
Mas, antes que qualquer combate levante a fina terra que cobre ochão da aldeia, Anderson precisa ser devidamente pintado e preparado.Dois índios estampam bolas pretas e vermelhas em todo seu tórax. “É apintura da onça, todo lutador tem que ter”, explica um deles. Em seusjoelhos são amarrados grossos panos, já que no huka-huka essa parte docorpo quase sempre está em contato com o solo. Na cintura vai uma tirade pele de onça e no pescoço, um colar de placas de caramujos (pedaçoslixados do casco), outro adereço exclusivo de guerreiros. Quase pronto,Anderson assume: “Estou um pouco tenso. Tenho certeza de que vou serjogado pra lá e pra cá”.Tarde demais para considerar a real possibilidade. Uma roda estáformada no centro da aldeia à espera do campeão do UFC. A maioria dosíndios nem sequer dormiu a última noite. É tradição para eles: emmadrugadas que antecedem dias de luta não se prega o olho. “Ficamos naconcentração pensando na luta até amanhecer o dia. Lá pelas quatro damanhã passamos óleo de pequi no corpo pra aquecer e massagear osmúsculos e pra evitar que o outro consiga te agarrar”, explica Were.Uma rápida demonstração de como funciona o huka-huka é feita paraAnderson. Explica-se que a luta começa com os dois ajoelhados,segurando na nuca ou nos braços um do outro. Para vencer é precisoderrubar o adversário de costas, de peito ou agarrar a parte de trás dacoxa. Aparentemente simples. Preparado, Anderson? “Sim. Preparado praapanhar!”
“Estou um pouco tenso. Tenho certeza de que vou ser jogado pra lá e pra cá”
Luís Maximiano
O desafiante já está no meio da roda à espera. Os dois pegam umpunhado de terra no chão e esfregam na palma das mãos. A luta começa –e não dura nem 15 segundos até o campeão de MMA estar caído de costasno solo. Foi só levantar e outro índio já estava pronto para um próximocombate. E pensar que na noite anterior Anderson havia dito que nãolutaria, que seria apenas uma troca de experiências. Balela, os índiosnão iam perder essa oportunidade. A segunda luta também foi rápida,questão de segundos até a nova derrota do discípulo de Steven Seagal.Quando o terceiro indígena pediu a vez Anderson não se conteve: “Esperaaí! Já apanhei demais! Agora vamos lutar na minha regra”. “E como é?”,pergunta um deles. “É um pouco mais violenta que a de vocês. Quando ooponente está no chão nós podemos continuar batendo. Ou podemosimobilizar também”, respondeu.
Pronto, não perdeu nenhuma das lutas seguintes – mesmo sem dispararnenhum de seus potentes chutes ou socos contra os índios. Resolveu comchaves de braço, finalizações ou simplesmente cansando o adversário atéele pedir pra parar, como aconteceu no largo combate com Were. Bufando,depois de minutos rolando na terra, o campeão do huka-huka ainda foipedir pra que Anderson o ensinasse um movimento que havia feito durantea peleja. Calmamente a técnica foi explicada diversas vezes. “É umtriângulo de mão. Uma técnica boa, eficaz. Espero que eles consigamusar no tipo de luta que fazem, que é quase semelhante ao estilo desolo do MMA”, disse o professor.
Luís Maximiano
Anderson em luta com o campeão de huka-huka Were, que carrega como cinturão um pássaro Xexéu na cintura
Luís Maximiano
Anderson em luta com o campeão de huka-huka Were, que carrega como cinturão um pássaro Xexéu na cintura
Cabeça paraquedas
Anderson, aliás, está acostumado a ensinar. Em sua casa a luta épassada de pai pra filho (são três meninos e duas meninas), assim comoacontece no huka-huka. “É tradição dentro da família. Todos eles têmque treinar, têm que se formar faixa preta, saber arte marcial. Sempreque estamos juntos dou treino, tento passar a filosofia da luta.Valorizo muito isso. Aqui na aldeia, achei muito interessante a formacomo eles conduzem o huka-huka, os preparativos e as tradições.” Maisum aprendizado para sua já extensa lista de artes marciais, que incluijiu-jítsu, tae kwon do, boxe, wing chun e boxe tailandês.Da rápida passagem pela arena dos camaiurá, Anderson saiu com duascoisas na cabeça: uma leve dor – “Numa luta alguém me jogou de cabeçano chão!” – e a sensação de ter agregado mais do que algumas técnicas –“Toda experiência em que absorvemos algo é boa. A pessoa que tem amente aberta pra novos conhecimentos sempre consegue aprender novascoisas. Eu tenho a possibilidade de treinar com pessoas de diversospaíses, de várias modalidades... Tento juntar tudo e criar meu próprioestilo, onde me sinto mais confortável.” –, e finaliza com a frase querepetiu diversas vezes na aldeia: “A mente tem que ser igual a umparaquedas: sempre aberta”.
Lutador do UFC fez a alegria da tribo no alto do Xingu
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Por Iran SPFC