A Santíssima Trindade Tricolor: Rogério Ceni, Juvenal Juvêncio e Milton CruzComo Rogério Ceni,Juvenal Juvêncio e Milton Cruz controlam o dia a dia do time e dostécnicos que topam a árdua missão de comandar o São Paulo



Ceni, Juvenal e Milton Cruz, os caras que mandam no futebol do São Paulo
Adílson Batista reúne o grupo no vestiário do Beira-rio. Um diaantes, ele havia sido anunciado como substituto de Paulo CésarCarpegiani no comando do São Paulo. Entre o lateral Juan e o volanteCasemiro, o técnico profere suas primeiras instruções e faz umagradecimento no fim do discurso: “Obrigado, Rogério, pelo espaço”. Ocapitão Rogério Ceni imposta a voz logo na sequência: “Vocês querem sercampeões?” Em coro, como uma disciplinada classe de alunos do colegial,a rodinha de jogadores devolve um uníssono “queremos!” O auxiliartécnico Milton Cruz, que ainda comandaria o time na vitória por 3 x 0sobre o inter, observa em silêncio a preleção do goleiro.
Sai técnico, entra técnico, a cena é corriqueira há mais de umadécada. Rogério é o dono do vestiário são-paulino. Na retaguarda, opresidente Juvenal Juvêncio dá suas cartadas no time através dovigilante Milton Cruz, seu braço direito nas contratações e porta-vozdos comandos aos jogadores. Três figuras-chave nas campanhas vitoriosasda Libertadores, do Mundial e do tricampeonato brasileiro, que, napersistente instabilidade do clube após a demissão de Muricy Ramalho,entretanto, passaram a compor uma velada rede de avaliação dostreinadores que transitam pelo Morumbi.
Não por acaso, Adílson pediu licença a Milton e tomou bênção aRogério em sua apresentação. Estar em comunhão com os dois homens deconfiança do presidente tornou-se requisito básico para um técnicosobreviver no São Paulo. Carpegiani arcou com o ônus de não falar amesma língua da Santíssima Trindade e foi sacrificado. Barrou oveterano Rivaldo, anunciado com pompa no início do ano por Juvenal. Naprimeira rodada do Campeonato Paulista, o meia, então jogador epresidente do Mogi Mirim, visitou o amigo Rogério Ceni no vestiárioapós a derrota da sua equipe para o Tricolor. Saiu de lá com um convitede Rogério, que sugeriu sua contratação a Milton Cruz. Em menos de umasemana, Juvenal carimbou a negociação.

Milton e Adílson: quem sabe mais?
Milton Cruz e Adílson BatistaO embate com Rivaldo, que se rebelou contra a reserva, desencadeou oinício da queda de Carpegiani. Rogério, “padrinho” da contratação domeia, também já não escondia o incômodo com as constantes variaçõestáticas da equipe. Há 21 anos no São Paulo, 15 deles como titular, ocapitão tem carta branca para indicar reforços, orientar jogadores eaté mesmo assumir o papel de auxiliar técnico dentro de campo. Durantea curta passagem de Sérgio Baresi pelo comando do time em 2010, ogoleiro chegou a ordenar a entrada do volante Cléber Santana, queestava no banco na partida contra o Atlético-GO.
A influência de Rogério Ceni transcende a ingerência que por vezesatravessa a comissão técnica. Em parceria com Milton Cruz, eleprospecta jogadores, como fez com Rivaldo, e ajuda a “amolecer” assondagens àqueles que interessam à diretoria — a exemplo do atacanteWashington, em 2008. Ídolo da torcida e afagado pelos cartolas, ocamisa 1 segue intocável no clube, imune à troca de técnicos e aostropeços.
Quando Muricy foi demitido, em junho de 2009, e Rogério tratava deuma lesão no tornozelo, dirigentes são-paulinos cogitaram a promoção docapitão como interino. Juvenal vetou. Apesar de tocar a vaidade dostécnicos, os poderes do goleiro estão acima de qualquer suspeita notricolor, inclusive dos jogadores mais experientes. “A liderança doRogério é positiva e se sustenta no seu conhecimento de futebol e doclube”, diz o ex-atacante Fernandão, que exercia papel semelhante ao deRogério no Inter quando jogador.
Na mediação entre o camisa 1 e a presidência, Milton Cruz acumulafunções de observador, auxiliar técnico e consultor de Juvenal. Além decorrer atrás dos reforços, ele faz o meio-campo das negociações e aponte entre os jogadores da base para o time principal. Desfruta deautonomia que auxiliares de outros clubes não têm. Os técnicos, desde ofim da era Telê, o consultam com frequência nas escalações. Seu cargonunca esteve a perigo. Quando um técnico cai, é Milton quem segura abronca e comanda o time interinamente.
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Mesmo conhecendo bem os jogadores e sendo o principal responsávelpela montagem do elenco, o auxiliar não se arrisca na carreira detécnico. Em 2003, o ex-goleiro e auxiliar tricolor, Roberto Rojas,assumiu a equipe e levou o São Paulo de volta à Libertadores após dezanos. O chileno, no entanto, foi demitido na primeira série de mausresultados. No ano passado, Sérgio Baresi, técnico dos juniores, tomouas rédeas do time principal. Durou apenas dois meses e, chamuscado,retornou para a base. Em ambos os casos, Milton Cruz era o auxiliar,mas seguiu com o emprego preservado. “É mais fácil achar um treinadordo que alguém que faça o meu trabalho no clube”, justifica.
Entretanto, o auxiliar não goza com alguns diretores do mesmoprestígio que tem com Juvenal. Alguns dirigentes condenam sua posturade “cartola”. Argumentam que, se algum reforço vinga, Milton canta que“contratou”. Se dá errado, porém, joga a responsabilidade para osdiretores. “Ele é vaidoso. A maioria dos jogadores que ele disse quetrouxe não procede. Não é função dele contratar, mas sim da diretoria”,afirma o vice-presidente Carlos Augusto de Barros, o Leco.
No fim de 2010, Leco repreendeu Milton Cruz pela divulgação dasondagem ao inglês David Beckham em uma viagem a Los Angeles.Conselheiros sustentam que o próprio Juvenal contribui para alimentar aciumeira. Episódios em que o presidente pede licença a aliados paraconversar a sós com Milton durante reuniões estratégicas enfurecem osdirigentes e inflam o ego do olheiro. Em janeiro, o superintendente defutebol Marco Aurélio Cunha pediu demissão, alegando não ser maisouvido pela direção.
Enfraquecida no clube, a oposição a Juvenal aproveita a dança dascadeiras de técnicos desde a saída de Muricy, e os fracassos recentesno Paulistão e na Copa do Brasil, para atacar o vangloriado “modelo degestão” tricolor. “Milton e Juvenal se gabam até hoje da barca trazidado Goiás em 2003, que foi a base do time campeão mundial. Isso há oitoanos. A filosofia de trabalho está totalmente ultrapassada”, diz EdsonLapolla, candidato derrotado nas eleições de abril que questiona oterceiro mandato de “JJ” na Justiça. Opositores do presidente aindacreditam o insucesso dos últimos treinadores à interferência de Juvenalna equipe ao impor seus jogadores e não dar espaço para indicações dacomissão técnica.
Para Lapolla, Muricy sofreu calado com a intromissão da diretoria emseu trabalho e manteve-se por tanto tempo no comando por causa dostítulos e pela amizade com Milton Cruz, Rogério Ceni e Juvenal. “Todopresidente de clube intervém no time. Não é um privilégio nosso”,aponta Leco. Após a demissão de Muricy, em 2009, os três técnicos queassumiram o tricolor não resistiram por mais de um ano. Agora é a vezde Adílson Batista enfrentar o crivo impiedoso da Santíssima Trindade.Ele passou no teste em seu batismo no vestiário. Mas nem Rogério nemJuvenal irão carregar sua cruz caso não consiga recolocar o São Paulono caminho das conquistas.
Atrito com Rivaldo gerou excomunhão de Carpegiani
Os 7 pecados capitais da Trindade
1 – PALPITEIRO: Conhecedor de futebol e do clube,Rogério Ceni dá pitacos até na formação do time. Põe em xeque aliderança dos técnicos de fato. Alguns se incomodam com a situação.
2 – FOGO AMIGO: A indicação de Rivaldo expôs o tinopara cartola de Rogério e Milton Cruz, visto com reticência pordirigentes graúdos que gravitam em torno de Juvenal Juvêncio
3 – VAIDADES: Milton Cruz irrita alguns diretores coma necessidade de dizer que “contrata” jogadores para o clube. Em 2010,levou uma invertida de Leco por revelar que sondava Beckham
4 – TIRO TORTO: Apadrinhado, Rivaldo indicou acontratação de Edson Ratinho, com o aval de Milton. O lateral nãovingou e jogou apenas uma partida com a camisa são-paulina
5 – PENEIRA: Antes dono da melhor zaga do Brasil, oclube abriu mão de Miranda, Alex Silva e Renato Silva. Sem opções parao setor, Adílson Batista sofre para montar a defesa
6 – NA MARRA: Eleição de Juvenal para o terceiromandato inflou os ânimos da oposição. Apesar de vencedor, o presidentesaiu do pleito desgastado e viu o time sentir o golpe
7 – MANCADA: Rifado por parte da diretoria e nabronca com Rivaldo, Carpegiani foi dado como demitido, mas ficou. Doismeses depois, caiu. Indecisão de Juvenal corroeu o grupo